domingo, setembro 16, 2012

Mais um suposto entrevistado desmente a revista "mais lida e influente" do país



Foi o O Globo quem noticiou nesse sábado: a defesa do publicitário Marcos Valério nega que o operador do mensalão tenha dado entrevistas ou dito algo a quem quer que seja que permita supor que ele tenha incriminado o ex-presidente Lula por participar direta e ativamente do esquema de financiamento de campanhas e lavagem de dinheiro supostamente usado pelo PSDB e, posteriormente, pelo PT.

O Globo não é exatamente um exemplo dos veículos que alguns acusam de orbitar em torno da "esgotosfera governamental", Ou seja, de ser conivente com o governo. Para a maioria, ele está muito mais alinhado ao que alguns denominam como "partido da imprensa golpista" e outros como "imprensa independente e combativa". Qualquer que seja o caso, diante da dimensão da notícia publicada pela Veja desta semana - que afirma a seus leitores que "a reportagem de capa reabre de forma incontornável a questão da participação do ex-presidente Lula no mensalão,O Globo fez o mínimo: procurou ouvir Marcos Valério sobre as supostas declarações do publicitário. Recebeu, como resposta, o desmentido do advogado de Valério. 

Agora, fica o dito pelo não dito. Mais uma vez, se ninguém divulgar a cópia do áudio das supostas entrevistas aos repórteres da Veja, comprovando que, desta vez ela sim elas existiram, tudo o que os cidadãos interessados poderão fazer é escolher entre uma VERSÃO ou outra. Quem antipatiza com o PT irá crer na revista. Quem demoniza a publicação da Abril vai dar ouvidos ao advogado Marcelo Leonardo. No meio, ficarão os que não suportam mais o clima de Fla X Flu que voltou a  tomar conta da política brasileira e os que, independente de ideologias, cada vez menos acreditam na imprensa. Sobretudo na Veja, que tantas denúncias infundadas e falsas polêmicas tem divulgado nos últimos tempos. Sem que ninguém tome satisfações para "lavar a honra atingida", mesmo quando a "barrigada" fica evidente.

Analisando o novo episódio, chamou minha atenção o trecho do texto publicado no site da revista (não sei se o texto é o mesmo da versão impressa, mas, mesmo que seja, não invalida minha avaliação de que a informação foi embalada de forma questionável). No trecho o autor esclarece que a reportagem de capa foi "feita com base em revelações de parentes, amigos e associados" de Valério. No jargão jornalístico é o que se chama off - quando uma fonte passa ao repórter uma informação sob a condição de não ter sua identidade revelada. Não há, no entanto, na capa da revista, nenhuma menção a isso. De forma que o leitor, ao adquirir a revista, é levado a, no mínimo,  crer que foi o próprio Valério quem concedeu entrevista exclusiva à revista. Conclusão reforçada pelo uso de uma polêmica aspas que, imagina-se, teria sido dita pelo publicitário.


O off é legítimo e, por vezes, necessário. Há circunstâncias em que o expediente é a única forma de levar uma informação a público sem colocar em risco a vida e a integridade da fonte. Ocorre que, usado indiscriminadamente, o recurso pode servir para camuflar matérias mal-apuradas, para não dizer mal-intencionadas. Há matérias escritas exclusivamente a partir de offs que não servem a nada além de permitir ao autor camuflar sua opinião ou suposição sob fórmulas batidas como as expressões "segundo fontes palacianas" ou "conforme pessoas próximas a". Não há nada de errado em emitir opiniões, mas o espaço para isso são as colunas e editoriais. 

Além de ter se tornado campeão no uso do off, a Veja parece também estar se especializando em responder a desmentidos de supostas fontes. Um dos casos mais sintomáticos foi o do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que desmentiu uma suposta entrevista após ter seu nome citado na revista. Não bastasse isso, o episódio ainda resultou na demissão do editor-assistente da revista National Geographic Brasil, que é publicada pela mesma editora da Veja, a Abril. Felipe Milanez foi mandado embora após escrever, em sua conta do twitter, que a matéria de Veja em que Viveiros de Castro era citado era "repugnante" e que o antropólogo corria o risco de nunca mais ser citado pela publicação, a exemplo do premiado jornalista Jon Lee Anderson. Autor daquela que é considerada por muitos a biografia definitiva de Che Guevara, Anderson comprou briga com a revista brasileira depois de ser citado em uma "matéria" sobre o guerrilheiro cubano, mesmo que não tenha sido entrevistado - apesar de ter manifestado ao repórter de Veja o interesse em dar a entrevista solicitada.

Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial.  No fim das contas, estou feliz de que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto", escreveu Anderson ao jornalista da Veja.

Em julho deste ano foi a vez do Ministério Público desmentir  notícia divulgada pela revista e garantir que nenhum repórter da publicação jamais procurara o órgão para checar as informações.

Como se vê, não somos o Reino Unido. Aqui, sob o argumento da "liberdade de imprensa (ou será de empresa?), métodos "murdochianos" encontram terreno fértil para prosperar. Vide o episódio em que a mesma revista divulgou imagens obtidas por câmeras "plantadas" sabe-se lá por quem em um hotel de Brasília. De concreto, além das imagens de membros do governo se reunindo durante o horário de expediente com o ex-ministro José Dirceu, réu no processo do mensalão, a matéria trazia muito pouco. Daí alguns terem se questionado: a revista tinha o direito de usar imagens obtidas ilegalmente? Quem instalou as câmeras no corredor do hotel? Como as imagens chegaram à revista? O Ministério Público ajuizou uma ação contra o repórter da revista que, durante a apuração da mesma matéria, fora flagrado pela camareira tentando invadir o quarto do petista. A Justiça arquivou o processo alegando que como a intenção de repórter fora frustrada, não houve crime. Algum tempo depois, outra polêmica: gravações feitas durante as investigações em torno do esquema chefiado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira revelaram que o contraventor mantinha um estreito vínculo com funcionários da revista, a quem sugeria matérias e municiava de informações, sempre com o interesse de prejudicar seus desafetos, entre eles, em algum momento, Zé Dirceu. 

Não se trata aqui de querer defender quem quer que seja diante de denúncias quando estas estejam bem fundamentadas. A questão é que, a "boa intenção" não pode justificar a má-fé. Apesar da propagada importância da "imprensa livre" para a democracia, no Brasil, ninguém parece preocupado em lembrar a responsabilidade desta mesma imprensa enquanto formadora de opinião e ator político. Temendo o fantasma da "censura", evitamos debater os erros propositais dos veículos privados ao mesmo tempo em que aplicamos aos públicos, sem a menor reflexão, a pecha de "chapa branca". E a influência destes erros pode ser nefasta para a democracia. Basta lembrar que, para a Veja, até há poucos meses, o senador Demóstenes Torres, recém-cassado pelo envolvimento com Cachoeira, era um paladino da Justiça. Conforme se soube depois, a revista sabia há tempos da ligação entre o bicheiro e o parlamentar goiano. E nada fez.





ADVOGADO NEGA ENTREVISTA DE MARCOS VALÉRIO A VEJAO GLOBO - 15/09 - 20h26
O advogado do empresário Marcos Valério, o criminalista Marcelo Leonardo, disse neste sábado que seu cliente não deu entrevista à revista Veja e negou as declarações atribuídas a ele, acusando o ex-presidente Lula de ser o chefe do mensalão.

— Desde 2005 Marcos Valério não dá entrevistas e não deu nenhuma entrevista para a revista Veja agora. Ele nega o teor das declarações atribuídas a ele — disse Leonardo, por telefone, ao GLOBO.

O advogado José Luís Oliveira Lima, que representa o ex-ministro José Dirceu, criticou a reportagem, com declarações de Valério, supostamente reveladas por pessoas próximas.

— Acho muito estranho que na véspera de iniciar o julgamento contra o meu cliente, e também na véspera do primeiro turno (das eleições), a revista venha com uma matéria desprovida de fatos concretos, de provas e documentos — afirmou o advogado, que minimizou a hipótese de o artigo influenciar no julgamento. — Fico tranquilo quando lembro que meu cliente está sendo julgado pelo STF, composto pelos magistrados mais experientes do país, portanto vacinados para qualquer tipo de pressão.

Em entrevista à rádio CBN, o ministro Marco Aurélio Mello, que participa do julgamento do mensalão, também minimizou a possibilidade de interferência:

— A reportagem não vai interferir no julgamento. A esta altura, nós temos os acusados já definidos. Nesse processo, não se volta para uma fase ultrapassada. De qualquer forma, o Judiciário só atua mediante provocação do Ministério Público.


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